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Postado em 16 de Dezembro de 2019 às 11h00

Manejo de doenças em soja: a importância de começar cedo

Agronegócio (6)

Por Carlos A. Forcelini, Eng.Agr. Doutor em Fitopatologia, e Rafael Roehrig, Eng.Agr. Mestre em Fitopatologia

 

Várias doenças afetam a cultura da soja no Brasil, causando prejuízos ao rendimento e à qualidade de grãos. A ferrugem asiática é a mais importante, e responde por mais de 80% da demanda em aplicações de fungicida na cultura. O complexo de manchas foliares e a antracnose compõem o segundo grupo em importância, seguidas pelo mofo-branco e pelo oídio. Essa ordem de relevância varia conforme a região considerada, época de semeadura e condições ambientais de cada safra.

As manchas foliares e a antracnose (Figura 1) são causadas por fungos necrotróficos, os quais, na entressafra permanecem nas sementes e nos restos culturais na lavoura. Por este motivo são as primeiras doenças presentes na cultura, logo na fase vegetativa, tão logo finda a proteção pelo tratamento de sementes. Quando mais jovem as plantas, maior a sua suscetibilidade a estes fungos, que também podem infectar e colonizar as plantas sem produzir sintomas em todas elas. Em termos práticos, na fase vegetativa da cultura da soja, há muito mais infecções presentes em relação àquela que a quantificação por sintomas pode determinar.

A importância, necessidade, benefício e, consequentemente, a decisão de aplicar fungicidas na fase vegetativa da cultura da soja depende de vários fatores. O cultivo contínuo de soja nas mesmas áreas assegura a presença das manchas foliares e antracnose todos os anos, o que varia é a sua intensidade, proporcional à temperatura e à frequência de chuvas na fase inicial da cultura. Nas regiões com temperatura mais amenas, pode haver menor pressão inicial destas doenças, porém o oídio e, também, a ferrugem (assintomática) se fazem presentes, como ocorre no Sul do Brasil, em vários locais. Portanto, sempre há presença de doenças a serem controladas na fase vegetativa da soja, o que varia é a prevalência de umas sobre as outras e a sua intensidade. Por isso, o benefício da aplicação de fungicidas é também variável.

A viabilidade da aplicação de fungicidas na fase vegetativa da soja tem sido estudada em alguns cenários de cultivo da soja. Em nossos experimentos, o objetivo tem sido avaliar a contribuição do tratamento e dois momentos específicos, pré-fechamento das entrelinhas (assegurar a deposição do fungicida no terço inferior da planta) e alguns dias antes, na carona de aplicação de herbicida.

Nos últimos 12 anos de pesquisa, a maior parte deles ainda como professor e pesquisador junto à Universidade de Passo Fundo, comparando experimentos com e sem aplicação no vegetativo (pré-fechamento das entrelinhas), a diferença média foi 360 kg/há. Na safra de soja 2018-19, com maior presença de doenças, inclusive a ferrugem, em cultivos estabelecidos em novembro, essa diferença atingiu até 654 kg/há. A falta da aplicação no pré-fechamento reduziu o controle das manchas foliares de 63,4% para 31,7%, e da ferrugem de 69,6% para 40,8%.

Nesta mesma safra 2018-19, dois experimentos foram conduzidos em Passo Fundo-RS, com cultivar de soja de grupo de maturação 5.9, com número variável de aplicações de fungicida. Era objetivo avaliar a contribuição de aplicações iniciais e finais no rendimento de grãos da cultura. Os resultados constam na Tabela 1, com algumas fotos na Figura 2. Nos tratamentos T2 a T6 foram utilizados diferentes fungicidas, entre T7 e T11 um único produto. Nota-se grande variação na produtividade com a subtração das aplicações na fase vegetativa (30 e 40 dias).

Variações na contribuição das aplicações de fungicida são absolutamente normais, por isso devem ser avaliadas regionalmente, e em diferentes safras. Em 2017-18, em cultivos na primeira metade da janela desemeadura, os tratamentos realizados no estádio V5 proporcionaram diferenças de 222 kg/há. No outro extremo, na safra 2018-19, em semeaduras na segunda metade da janela de plantio, a contribuição chegou a 948 kg/há. A realização desta aplicação passa a ser uma alternativa, por várias razões: controla infecções recém instaladas e previne a ocorrência de outras, se realizada com fungicidas compatíveis com herbicidas permite sua utilização conjunta e flexibiliza o operacional da próxima aplicação.

A escolha dos fungicidas que serão aplicados depende das doenças a serem controladas. Em áreas de monocultura de soja, o foco principal são os fungos necrotróficos causadores das manchas foliares e antracnose. Dependendo da região e da época de semeadura, também o oídio e a ferrugem asiática. A contribuição dos fungicidas benzimidazóis é, hoje, muito pequena, em função da resistência já desenvolvida por vários fungos. Triazóis como o difenoconazol tem sido bastante úteis. Em experimento conduzido na safra 2018-19, em Passo Fundo, com cultivar de soja super-precoce, uma aplicação de difenoconazol + propiconazol aos 30 dias proporcionou diferenças de 378 a 576 kg/há.

Semeaduras mais tardias, sujeitas à presença da ferrugem asiática, requerem combinações mais robustas, como mesclas de triazóis, triazóis + multissítios, ou triazóis + estrobilurinas, como exemplificado na Tabela 2. Neste experimento, apenas a primeira aplicação variou, enquanto as demais foram realizadas com o mesmo tratamento, em cada época de aplicação, em toda a área. Houve diferenças de 78 a 948 kg/há conforme o fungicida utilizado, com maior contribuição das misturas de triazóis + estrobilurinas, ou triazóis + multissítios, por conta do melhor controle da ferrugem asiática.

O próximo momento importante na aplicação é aquele do pré-fechamento das entrelinhas, visando o controle de manchas foliares, antracnose, oídio e ferrugem. Este já requer a utilização de opções mais completas, incluindo reforços, que podem ser com triazóis ou multissítios (mancozebe, clorotalonil ou cúpricos). A escolha dos fungicidas e dos reforços irá depender das doenças predominantes na lavoura, em função da época de semeadura, condição ambiental, ... A Tabela 3 apresenta o resultado médio de dois experimentos semelhantes, conduzidos em dois locais (Passo Fundo-RS e Cotripal Condor-RS) e duas cultivares. A aplicação em V7 reduziu a severidade das doenças de final de ciclo de 13,5% para 4,9 a 7,2%. Sobre a ferrugem, a redução foi 46,7% para 28,4 a 38,2%. O reflexo na produtividade de grãos variou de 306 a 525 kg/há.

Como comentado anteriormente, a contribuição de aplicações de fungicida na fase vegetativa da soja varia conforme o histórico de cada lavoura, em função da região, época de semeadura, condição de ambiente e prevalência de doenças. Por isso, as indicações de manejo devem ser regionalizadas e ajustadas às condições de cada cultivo de soja.

Tabela 1: Severidade final de doença e rendimento de grãos em função do número de aplicações de fungicida1. Cultivar com grupo de maturação 5.9. Passo Fundo-RS, 2019
 

Tabela 2: Variações na severidade das doenças de final de ciclo e ferrugem asiática, e no rendimento de grãos associadas ao fungicida utilizado na primeira aplicação em V51. Cultivar com grupo de maturação 6.2. Passo Fundo, RS, 2018-19

Tabela 3: Variações na severidade das doenças de final de ciclo e ferrugem asiática, e no rendimento de grãos associadas ao fungicida aplicado em V71. Médias de dois locais, Passo Fundo-RS e Condor-RS, e duas cultivares com grupo de matuação 5.6. Safra2018-19

Figura 1: Principais doenças causadas por fungos necrotróficos já presentes na fase vegetativa da cultura da soja

Figura 2: Parcelas de soja com número variável de aplicações de fungicida. Passo Fundo, RS, 2018-19

Sobre a UPL

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Fonte: UPL

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