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Postado em 28 de Junho às 15h37

Colheita do pinhão sustenta famílias e tradição extrativista nos Campos de Cima da Serra

Agronegócio (12)

POR MARIA ALICE LUSSANI


As araucárias compõem um retrato único nos Campos de Cima da Serra. Um dos municípios que concentram a beleza cênica dessas matas é São Francisco de Paula, que conta com a maior área de araucárias do Rio Grande do Sul. Em plena colheita do pinhão, o município deve colher 60 toneladas, uma quebra de 60% em relação ao ano passado, quando foram colhidas 150 toneladas. No Estado, a produção deve ser de 400 toneladas, 50% menor do que no ano passado, conforme levantamento da Emater, conveniada da Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (Seapdr).

O principal motivo para esta redução, de acordo com a Emater, foi o clima em 2017. A produção da semente sofreu impactos decorrentes da distribuição pluviométrica, com excesso de chuva, estiagem e geadas fora de época. A colheita se estenderá até o final deste mês, de acordo com portaria publicada pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais), que regulamenta a atividade.

A agricultora Marley Zambelli cultiva milho e cria pequenos animais como porcos e galinhas durante o ano, mas nesta época se dedica totalmente à colheita e ao beneficiamento do pinhão. “Este ano a produção foi baixa, mas nos outros anos, quando a safra é maior, dá uma renda boa. A gente defende o ano com a colheita do pinhão”, conta. Marley aguarda a liberação de R$ 39.996 do Feaper (Fundo Estadual de Apoio ao Desenvolvimento dos Pequenos Estabelecimentos Rurais) para investir na Agroindústria Recanto das Araucárias. Com a liberação do dinheiro e a compra dos equipamentos, como mesas, tanque, fogão, máquina de moer e descascar o pinhão, parte do beneficiamento passará a ser feito de forma mecanizada, e não mais manual, como realizado até hoje.

 

A agricultora vende o pinhão que colhe diariamente in natura e também produz bolos, paçoca, farinha, pastéis, croquetes. O ponto alto da comercialização é a Festa do Pinhão de São Francisco de Paula, organizada pela prefeitura. Este ano, a festa ocorreu em apenas um final de semana, entre os dias 7 e 9 de junho, recebendo em torno de 20 mil visitantes. Foram distribuídas gratuitamente 2,5 toneladas de pinhão. A comercialização da agricultura familiar chegou a R$ 25 mil, e a movimentação na cidade, incluindo hotéis, restaurantes, comércio, entre outras atividades, chegou a R$ 3 milhões. “Este retorno financeiro dá muita credibilidade para a festa, que ano que vem vai estar melhor ainda”, afirma Rafael Castello Costa, secretário de Cultura, Turismo e Desporto de São Francisco de Paula.

O produtor Claiton Boff, do distrito de Samambaia, participa da festa há 12 anos. Para ele, o pinhão é uma das principais fontes de renda do inverno. E vale a pena, garante Claiton. “Hoje o quilo do pinhão custa R$ 10, e qualquer punhado de pinhão dá um quilo”, conta. No comércio, o valor pago varia entre R$ 10 e R$ 12 o quilo. Para o extrativista, o preço pago pelo quilo varia entre R$ 7 e R$ 9.

A extensionista rural social da Emater Sandra de Moraes Silva afirma que a maioria dos produtores ainda não utiliza a semente como fonte de renda. Apenas 95 famílias das 1.050 envolvidas com agricultura familiar em São Francisco de Paula utilizam o pinhão para este fim. E esse número pode ser muito maior. “Conforme o produto vai se valorizando no mercado, o interesse e o envolvimento vão aumentar. Aconteceu assim também com o queijo serrano”, avalia. Segundo Sandra, o pinhão é matéria-prima para uma série de produtos, como leite de pinhão e farinhas.

A araucária

A araucária é uma planta nativa do Rio Grande do Sul, protegida pelo Ibama. De acordo com a Portaria Normativa Descrição DC-20 de 1976, criada pelo órgão ambiental, é liberada a colheita e a venda da semente de abril a junho. Também proíbe o abate/corte de araucária, salvo algumas exceções.

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